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Receita para um pôr-do-sol

Domingo, seis da tarde, doze graus.
Ao longe, a Serra da Cantareira envolta em cinza.
Lá embaixo, os carros passam lentos. Os faróis molhados refletem poças de luz gelada na Avenida Sumaré.
Para redimir a tarde fria, é preciso inventar um pôr-do-sol.
Na cozinha, uma panela quente e duas colheres de azeite. O azeite esfumaceia, reclama a companhia da cebola e do alho. Envolve os dois no seu calor. A cebola chia promessas culinárias, fala mais alto que a garoa. O cheiro de alho sobe, pica e aquece as narinas.
O frango desce à panela e aprecia seu pequeno spa de azeite perfumado. Alecrim, tomilho, urucum e um cálice de cerveja preta.
Acrescenta-se à panela o sol picado em pequenos cubos simétricos – ou, se não houver, cenoura, batata e mandioquinha.
Pinta uma tarde dourada no fundo da panela.
Canela. Sal. Pimenta. E quando a água ferve, duas colheres de aveia.
A sopa borbulha, quente e cremosa. A tarde esquenta, e o sol se põe.

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Meu reino

Meu reino por um bolinho de chuva sequinho, passado na canela. Um café em xícara de ágata branquinha. Ter um livro do Drummond para ler, e não ler.

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Serendipity

Talvez seja uma vingança da língua inglesa. Ela não tem “saudades” mas tem “serendipity”, que precisa de meia dúzia de termos para ser explicada em português. De acordo com o dicionário, “serendipity” se traduz como “a faculdade de fazer, acidentalmente, descobertas felizes e inesperadas”. Ou seja, uma faculdade essencial para um cabeça-gorda: encontrar a comida perfeita no local inesperado, sem recomendação de amigo nem resenha de jornal.
Ontem, voltando do Brás, resolvi passar na Padaria São Domingos, no Bixiga, para comprar massas para o almoço. Nunca tinha ido lá, mas guardava a boa lembrança de um pão de linguiça que o Tung me trouxera de presente.
Achei a geladeira de massas meio pobre, abandonada na porta da padaria. O hit, pelo jeito, são mesmos os pães, que chegavam quentinhos e eram disputados por uma fila de pessoas. Entre pães, linguiças e queijos, tentei concentrar-me na vitrine, onde algumas empadinhas douradas e canolis sequinhos prometiam delícias. E foi então que avistei, no cantinho do caixa, um casal comendo uma espécie de pastel dourado com queijo escorrendo pelos cantos.
E agora? Tinha a certeza de aquele era meu momento de “serendipidade”, mas como evitar o mico de pedir um “igualzinho ao daqueles ali, ó”? Quando eles foram pagar, descobri que se tratavam de fogaças.
Virei para o atendente e com a segurança de um habitué, pedi:
“Duas fogaças, por favor!”.
“Da normal?”
Tentei calcular rapidamente qual a probabilidade de estar pedindo a fogaça certa, aquela que me deixaria instantaneamente feliz, e confiante como um connaisseur, respondi:
“Sim, naturalmente!”

Corri com o pacote quentinho para o carro, onde a Angela estava amamentando a Lívia (no caso, trata-se de uma cabeça-gordinha que fez reserva de mercado e só fica feliz com um tipo de alimento).
E então, ali mesmo na rua, saboreamos a felicidade da descoberta. Uma massa que eu não conhecia, lembra um pastel, mas com a textura de uma chipa, recheada com muito queijo mozzarela, um pouco de tomate e orégano. O queijo é do bom, gordo, que ao ser derretido desprende um fio de gordura dourada que escorre só para aumentar o prazer de lamber os beiços.
Não precisa se preocupar com as artérias. Elas sabem que, mais saudável que evitar excesso de óleo, é ser feliz!