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Comer Paris em um dia (sem garfo)

Minha mãe sempre disse que mineiro é muito prevenido e detesta passar fome. Quando pegar o trem, não deixa de levar um farnel. Vai que o trem atrasa. Vai que não encontra comida. Vai que.

Foi pensando nisso que minha mochila de viagem tinha até barrinha de cereal. Com uma agenda de reuniões bem apertada em Londres, vai que não dá tempo de comer um sanduíche.

Antes de Londres, entretanto, tirei um dia para passear em Paris, e conhecer uma lenda da gastronomia – o Cordon Bleu. Me inscrevi para um workshop de molhos. Ou atelié de sauces, que soa mais saboroso.

O workshop, embora de técnicas básicas, foi bem puxado. São cinco horas em pé, para fazer quatro molhos e três pratos, sem muito tempo para anotar. Mas não cortei o dedo, não derrubei nada em nenhum dos outros treze alunos e não me queimei (muito).

Lá pela segunda receita eu fui perceber que a apostila só tinha os ingredientes, e não a ordem de preparo. Ao fim do dia, as receitas ficaram todas embaralhadas na minha cabeça.

Mas tinha feito um filé de frango au sauce bordelaise, um peito de pato ao molho de laranja e um lagostim com um molho delicioso feito a base de caldo de peixe, tomate e erva cidreira, além de uma porção de pesto. Como já havia saído do hotel, não tinha para onde levar os pratos. Acabei dando para o Francis, o único francês de turma, que me convidou para jantar na casa dele semana que vem.

Claro que guardei o lagostim. Comprei um pão de cereal, sentei à margem do Sena ouvindo jazz e… cadê o garfo? Tive que pescar os lagostins com o pão, espirrando molho na minha roupa. Completei com uma torta de ruibarbo comprada na Île de Saint Louis e fui dar a última voltinha antes de ir para o aeroporto. Meu võo para Londres partiria às 20:00.

Já no área de embarque, às 19:20, entrei numa loja de gastronomia para apenas dar uma espiada. Comprei um torrone de castanhas e figos secos, pensando em comer apenas metade e guardar o resto para depois. Peguei uma revista, sentei. O torrone estava uma delícia. Macio, sgem doce em excesso. Eu me lembro de ter terminado de comer às 19:50, achando estranho que o vôo ainda não estivesse anunciado. Como um bom mineiro, já tinha “calçado” o estômago. Como um bom paulista, sabia que vôos se atrasam.

Quando fui me informar, às 20:10, descobri que o vôo tinha partido às 20:00. Pontualmente.

Minha mãe sempre me disse que mineiro é prevenido. Nunca esquece de levar um lanche, chega bem antes na estação de trem. E depois do lanche, cochila e perde o trem.

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Comer Belém de colherinha

Acordar às seis para chegar ao aeroporto às sete para pegar um vôo às oito que, na verdade, só vai sair às nove. Em viagem de trabalho você aprende duas ou três coisas sobre a cidade com o taxista no caminho do aeroporto ao hotel, espia a vista pela janela (quando dá a sorte de pegar um quarto num andar alto) e fica o restante do tempo trancado em uma sala trabalhando. A arquitetura dos hotéis é medieval: as salas de eventos ficam no subsolo, uma espécie de masmorra moderna, semi-iluminada, onde você fica acorrentado a um powerpoint e de tempos em tempos carcereiros de gravata borboleta trazem um café preparado horas atrás e petit-fours de origem duvidosa.

A sorte é que podem te impedir de conhecer a cidade, mas de comer ninguém impede. E eu tinha dois dias inteiros para comer Belém!

Chegamos bem na hora do almoço. Comida de hotel é sempre meio burocrática, mas deu para montar um “menu degustation” local: feijoada com maniçoba, arroz paraense, pato no tucupi e moqueca de filhote. De sobremesa, bolo podre, creme de cupuaçu e bolo podre de novo, porque era perfeito para acompanhar o café. Esse bolo é feito de coco e tapioca.

Seis horas e e dois powerpoints depois, saímos para jantar. O Marcelo já tinha me falado do Manjar das Garças, um restaurante à beira do rio Manguá, dentro de um parque antes de acesso restrito à marinha.

Conseguimos um lugar na varanda, com silêncio e brisa do rio de acompanhamento, e pedimos o menu confiance – seis pratos inesquecíveis, com ingredientes locais, montados pelo Alexandre Righetti, chef paulista que comanda o restaurante. Não preciso dizer que eu comi devagar, não deixei uma migalha no prato e ainda devorei uma sobremesa que o Marcelo não gostou. Afinal, quando é que eu teria a chance de voltar àquele lugar?

No dia seguinte, muito trabalho, pouco almoço, mas a missão cumprida exigia uma comemoração. E alguém dá a idéia: por que não vamos ao Manjar das Garças. Quando a seqüência de pratos começou a desfilar na mesa, comecei a duvidar do ditado que diz que um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar.

Lá estavam o mil-folhas de salmão com espuma de alho, o filhote grelhado com cogumelos, o granité de jambu com limão e o melhor talharim que já comi na vida. O granité é uma invenção do chef, que combina jambu (a erva paraense que anestesia a língua) com suco de limão, para limpar o paladar entre a seqüência de carnes branca e a de carnes vermelhas. O talharim eu não resisti e perguntei o segredo: a massa é aberta, cortada e cozida na hora, o que confere uma textura com uma maciez inigualável.

O vôo só partia às 02:30 da manhã, e no aeroporto ainda foi possível experimentar alguns sorvetes de frutas locais: murici, bacuri e claro, cupuaçu, além de comprar bombons de castanha.

Na bagagem, ainda trouxe um pote de sorvete de tapioca, que estou comendo de colherinha para não acabar logo.

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Avisem o sindicato dos lactobacilos


Eu, perdido no meio de um congresso de cardiologia. Fui acompanhar a Ângela no lançamento de um livro para o qual ela escreveu um capítulo. Ela cumprimentava os amigos e eu ali no meio, procurando o que fazer.
Tentei o stand de livros: “Cuidados Avançados de Enfermagem”. “Traqueostomia em 10 lições”. “Meu primeiro transplante”. Hmmm… não é exatamente o que gosto de ler.
Stand de DVDs: “Concorra a um DVD grátis com todas as palestras do congresso.” Não, não.
E quando já ia desistindo de encontrar algo para fazer — a melhor opção era mesmo assistir à palestra de Circulação Extracorpórea — não é que descubro stands de comida?
Estavam lá a Becel, com suas margarinas insípidas que fazem questão de lembrar que a comida ou é boa para o coração ou é boa para o estômago. Nunca para os dois. Passei adiante. Ao lado, um stand do ADES. Experimentei o ADES de banana. Gostei.
Lá no fundo, um stand da Batavo. Experimentei o Batavo BioFibras, um concorrente do Activia que diz ser menos calórico. É bem cremoso, não é excessivamente doce e ainda tem dois lactobacilos funcionais. Diz o folheto que eles passam intactos pelo estômago e chegam vivos ao intestino.
Fiquei surpreso que sejam apenas dois. Afinal, sempre achei que tomando Yakult eu estava ingerindo uma colônia inteira de lactobacilos. Se o BioFibras consegue reestabelecer o equilíbrio da flora intestinal com apenas dois, deve ter muito lactbacilo desempregado.Será que o sindicato está sabendo disso?

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Enigma elementar — ou alimentar? (1)

Um quarto de andorinha…
Será a sua pata
ou será uma asinha?
Se fosse uma empada,
eu comia todinha!

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Ensino à distância

O automóvel cruza as estradas do Brasil central.
Gostaria de dizer “o automóvel cruza velozmente as estradas do Brasil central” – uma abertura muito mais cinematográfica, mas os buracos e ondulações da estrada não permitem esta velocidade.

O carro cruza as estradas como pode, e às cinco da tarde do sábado de outono, pelo menos o céu é amplo e a luz do sol doura intensamente os campos de soja à espera de um Van Gogh para retratá-los.
Dentro do carro, os quatro professores tentam definir o dourado: parece uma pamonha quentinha? A crosta reluzente de uma empadinha de frango? A superfície lisa e cremosa de um curau?
O motorista relata as incríveis variações de pamonha que podem ser encontradas em Brasília: pamonha com lingüiça e queijo. Pamonha com lombinho de porco e muita cebolinha. Com pimenta. Sem pimenta.

O sol desce um pouco mais e sua luz fica mais escura. Cor de pão quentinho saindo do forno. Ou cor de um nugget de frango. A fome também cria miragens, e os pés de milhos esguios e ressecados contra o sol parecem um imenso arco do McDonalds.

O aeroporto de Brasília está fechado, e os quatro professores ansiosos para voltar para casa decidiram alugar um carro, contratar um motorista e rodar 1.100 km até São Paulo. Saíram sem almoço, apenas com o tempo de pegar algumas garrafas d’água e meia dúzia de pães de queijo murchos que sobraram do lanche.
Partiram às duas da tarde, e logo começaram a suceder-se as placas na estrada. Pamonhas. Pão com linguiça a 500 mts. Pão com lingüiça caseira a 300 mts. Pão caseiro com lingüiça caseira a 200 mts. Amplos toilets, os melhores da região. Tanto anúncio de toilet lança uma dúvida sobre a qualidade da vigilância sanitária da região.

A primeira parada é em Catalão de Goiás, num posto à beira da estrada. O amigo de todo viajante é um churrasquinho – pão francês, filé e queijo, com o pedido adicional de um tomate. Mas há também quem não resista a um pastel frio. Biscoitos de polvilho, Eskibon de sobremesa, mais água e balas de hortelã – doze horas sem banho, ao menos o hálito vai ficar fresco.

Na segunda parada, em Minas Gerais, tentam comprar queijo, para levar um “agradim” às famílias. As casas especializadas já fecharam (como dormem cedo estes mineiros!). O jeito é comprar mesmo um queijo-de-minas no Pão de Açúcar 24 horas. Ninguém vai ficar sabendo da verdade.

Já no estado de São Paulo, uma parada rápida. Agora é a vez do carro se abastecer. Ninguém desce. O trato é tomar um lanche rápido mais tarde, no Frango Assado da Bandeirantes

Às 21:00, quem ainda está acordado volta a ver miragens: lagos viram suculentas canjas de galinha. Árvores iluminadas pela lua cheia parecem palitos de batata frita.

Já de madrugada, os viajantes param no Frango Assado. Café com leite, pão sovado na chapa. O pão sovado merece detalhes: é uma fatia grossa, com pouca manteiga, passada na chapa o suficiente para aquecer e ficar com as bordas levemente escuras. Lembra um colchão quentinho e macio. Ou isso já era outra miragem?

Chegam em São Paulo às 3:00 da madrugada. Impossível negar que foi divertido. Viveram, na prática, o que se chama por aí de ensino à distância.

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O pai, a filha e o fígado com lentilha

A mãe saiu domingo bem cedo e recomendou:
— Faz um arroz com lentilha pra menina. E não esqueça de comprar frango no supermercado. Vida dura essa de enfermeira. Um dia volto a ser uma pessoa normal.
O pai deu mamadeira pra menina, esperou ela fazer cocô – ficava aterrorizado com a possibilidade de ter que trocar a fralda bem no meio do supermercado. Onde deixar as compras? E se só tivesse mães no fraldário? E se a menina saísse correndo sem colocar a fralda, como faz em casa? E se sujasse a roupa?
Às 08:40, nenê trocada e com fita no cabelo, foram ao supermercado.
Primeira vez que ela ia no carrinho de brinquedo, com volante e portinha.
Sentiu-se a rainha do biscoito de polvilho, e fez questão de anunciar a realeza com gritinhos de alegria chamando a atenção dos passantes.
Após cinco minutos de passeio, já não quis ficar sentada. Meio miss (aqueles olhos verdes!), meio rainha da Inglaterra de fralda em carreata, ficou de pé e acenava para o que queria.
Hora de comprar carne. O pai pede um quilo de músculo, a menina reclama da súbita parada – parou por quê?.
“Corta o músculo aí que eu já volto!”.
O pai dá mais uma voltinha para distrair a menina, vai buscar o músculo, pega um frango e resolve comprar um vinho para si.
Já de volta em casa, faz o arroz com lentilha, acrescenta um fígado de frango. Faz o dobro de comida para não ter que voltar ao fogão na hora da janta. Afinal, é domingo.
E ainda falta decidir o que vai fazer de almoço para si mesmo.
Hora de comer. A rainha, impaciente como todas, reclama. Mal quer esperar a comida esfriar.
A menina no cadeirão, o pai na mesa. Comida cheirosa. Vai dando as colheradas para a menina, e de vez em quando rouba um pedacinho de fígado. Era um fígado grande mesmo, já tem bastante amassado no prato para ela.
Resolve abrir o vinho, e vai bebericando enquanto dá as colheradas para a filha. Que vinho gostoso. Super harmonizado com o fígado. Dá uma olhada para o prato, outra para a panela. Será que ela vai comer tudo? Apenas duas colheradas da panela não vão fazer falta para o jantar.
Ficou uma delícia, mas falta um pouco de mais de azeite e um pouco de pimenta-do-reino moída na hora.
Pega mais duas colheres da panela, acrescenta o azeite e a pimenta. Continua revezando entre o vinho, as colheradinhas para a menina, e as colheradas para si.
Termina a panela ao mesmo tempo em que a menina termina o prato.
Vai ter que voltar para o fogão na hora do jantar.

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I see dead food

Avistei o garçom no final do corredor, caminhando em minha direção.
Apertei os olhos míopes e tentei adivinhar o que estava na bandeja.
Era um doce. Três camadas. Uma rosa, uma negra e uma dourada.
Nenhum receita que eu conhecia. Talvez algo de sabor exótico.
O garçom se aproximava.
Torta-mousse de olho de sogra com morango?
Terrine doce de quindim com ameixas e creme de melancia?
Pavê de amêndoas torradas com recheio de rosas e um toque de laranja?
Passa o garçom afoito.
Na bandeja, simetricamente dispostos em pratinhos, sachês de catchup, mostard e maionese.

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Um pacote de MMs

Comprei um pacote de MMs após o almoço.
Vim andando pela calçada –
listra preta, MM vermelho, listra branca MM laranja.
Uma quadra, atravessar a rua, entrar no prédio.
Por um momento, eu acreditei que era o Mário Quintana.
Acabaram os MMS antes de eu chegar ao elevador.
De repente tudo ficou sem cor.

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Eu vi o Kublai Khan!!!

Quarta-feira é aquele dia em que a quantidade de trabalho a ser executado faz parecer que a sexta-feira nunca vai chegar. Por isso sempre acreditei que é um excelente dia para um almoço “cabeça-gorda”. Não diminui o trabalho, nem faz a sexta-feira chegar mais rápido. Mas deixa qualquer um muito feliz.
Hoje resolvi conhecer o restaurante do Centro de Cultura Judaica, ao lado do Metrô Sumaré. Faz algumas semanas que eu tinha passado lá em frente e visto uma plaquinha: restaurante aberto ao público às quartas e sextas. Claro que meus neurônios gustativos imediamente registraram essa informação para uso futuro.
Não costumo convidar ninguém nessas primeiras visitas a um restaurante, já que sempre posso quebrar a cara. E também porque é legal aquele gostinho de Marco Polo – eu vi o Kublai Khan e vocês não viram!
Dessa vez, acabei arrastando a Gabi comigo, e não só vimos o Kublai Khan, como também o geffilte fish, o falafel, o borscht de espinafre, o cuscuz com favas e noque de semolina. A Simone, chef que é uma simpatia, explicou que se tratava uma refeição especial, com vários pratos a base de leite, para comemorar o Shabat.
Às 12:30, o restaurante estava vazio, o buffet montado fresquinho e ainda intocado. O Centro de Cultura Judaica é um prédio bonito por fora, um pouco frio por dentro, mas com um pé direito lindo, um espelho d’água, muito espaço vazio. E quilômetros de distância da Av. Paulista. Eu tinha certeza que ao sair ia dar no Central Park. Mas isso deve ser apenas uma ilusão provocada pelos incríveis blinis de queijo com sopa de frutas. Esta sensação alucinatória só ocorre, naturalmente, depois de você repetir os blinis, além de ter provado o pudim a base de arroz e amêndoas. Desconfio que o pudim leva água de rosas no preparo. Por isso tem gosto de jambo.
Você nunca comeu jambo? Nunca viu o Kublain Khan? Então sua sexta-feira vai demorar muuuuito para chegar.

(O Centro de Cultura Judaica fica no Metrô Sumaré. Abre às quartas e sextas, das 12:00 às 15:00 e a refeição custa bem menos que uma passagem para a China. Apenas 20,00.)

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Arroz-de-cuxá

Nunca experimentei.
Está na minha lista de comidas a serem experimentadas.
Mas lembrei desse prato em homenagem a Josué Montello, escritor maranhanse falecido nesta quarta, aos 88 anos.
Quando eu era criança, tinha um livro dele em casa. Não me lembro mais do nome. Mas lembro que li duas vezes.

“O arroz-de-cuxá é o prato típico da cidade de São José de Ribamar e é o orgulho maior da culinária maranhense. A base desta preparação é a vinagreira, (Hibiscus sabdariffa ) conhecida também como azedinha, caruru-azedo, quiabo-róseo, quiabo-roxo, quiabo-azedo e rosélia, oriunda da África”.
http://www.azeite.com.br/article.php?recid=266